Melhor Porto “ainda está por chegar” – Nuno

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Na sua primeira grande entrevista desde que assumiu o cargo de treinador dos Dragões, Nuno Espírito Santo garantiu, esta quinta-feira, que “a melhor versão do FC Porto ainda está por chegar”. Na emissão transmitida em direto no Porto Canal e conduzida pelo jornalista e diretor geral Júlio Magalhães, o técnico revisitou os seus primeiros quatro meses e meio de trabalho e assumiu a responsabilidade de “quebrar o ciclo” de três anos sem títulos. O recente encontro com o slb foi abordado, assim como a sua filosofia de jogo e várias opções técnicas tomadas ao longo dos últimos jogos. “As ambições estão intactas” e a exibição de sábado justifica um “voto de confiança dos adeptos”, frisou o ex-guarda-redes, que assumiu também o seu portismo, que ficou solidificado quando era muito jovem e passou pelos juniores azuis e brancos.

O jogo com o slb
“O empate foi de todo injusto, vimos e sentimos que a equipa mereceu a vitória. Conseguimos submeter e impor a nossa ideia durante o jogo. A força do FC Porto foi superior e avassaladora, conseguimos controlar, dominar e chegar ao golo. Na primeira parte esteve muito do que pretendemos para o futuro da nossa equipa. A injustiça do jogo foi algo que todos sentimos. Esses dois pontos foram difíceis de deixar fugir, mas sem dúvida que serão catalisadores. Viver a dor quando sabemos interpretar estes momentos faz de nós mais fortes.”

As substituições
“Tudo é pensado, tudo tem o seu porquê. Não somos adeptos, digo isso com todo o respeito, ponderamos e sabemos a génese da questão. As substituições foram feitas pelo que nós observámos e achámos melhor para a equipa. A intensidade que os jogadores puseram em campo foi grande e o plano passava por isso, por jogar no meio-campo adversário, mas não conseguimos fechar o jogo. A equipa precisava na segunda parte de outras armas para responder ao adversário e continuar a procurar o golo. Não renunciámos ao ataque, mas é preciso interpretar o momento do jogador em campo e o que o outro pode dar. A entrada de um terceiro médio por parte do rival deu-lhes mais controlo e tornou mais difícil a nossa tarefa. Mas não fomos reativos, fomos pró-ativos para o que queremos para a equipa.”

O golo do empate nos descontos
“Momento é a palavra fundamental. O jogo é feito de momentos. Nos descontos, a exigência tem de ser máxima. É um período em que devemos estar mais concentrados e atentos. Foi uma desatenção que nos fez empatar esse jogo, nada o fazia prever. Após um desgaste e esforço físico tremendos, isso é muito difícil.”

O crescimento da equipa
“O crescimento passa pela interpretação de todos os jogos serem iguais. Todos representam os três pontos que queremos e precisamos de conseguir. A exibição em Setúbal foi boa, faltou-nos vencer o jogo, e voltamos a algo fundamental, a eficácia. Temos juventude que consideramos uma virtude na nossa equipa e a eficácia faz parte do processo e vai aparecer naturalmente. Quando conseguirmos ter esses ingredientes fundamentais vamos ter uma equipa ganhadora, que seja capaz de vencer todos os jogos, interpretar todos da mesma maneira, seja em que competição for. Isso exige muito, não possa só pelo momento do jogo mas também pelo treino, pela mensagem que transportamos em casa, de pôr o FC Porto acima de tudo na nossa vida.”

Quebrar o ciclo sem títulos
“Não podemos abstrair-nos do ciclo em que estamos. Essa mensagem foi passada aos jogadores, há necessidade de o quebrar, estamos há demasiado tempo sem títulos. Mas o caminho é o que vimos este domingo, uma equipa que merece esse voto de confiança. A equipa vai continuar a demonstrar aos adeptos que podem confiar nela. Paciência é outra coisa, não pensamos nisso, potenciamos o desempenho para merecermos essa confiança contínua, para que os jogadores se sintam apoiados, em casa. O cenário é esse, nós somos responsáveis por quebrar o ciclo e isso passa por vencer.”

A situação na Liga portuguesa
“As ambições estão intactas. O campeonato é uma caminhada longa, estamos na décima jornada. O cenário que montámos antes do jogo com o slb era estar a dois pontos do primeiro, aí estaríamos mais perto, mas estamos no caminho. O nosso trabalho é este: olhar para a equipa que temos, a determinação e ambição dos nossos jogadores, e dizer que este é o caminho. Perdemos pontos onde não devíamos e isso é responsabilidade nossa. Mas os outros também vão perder pontos, nós é que vamos evitar cometer os mesmos erros, já errámos o suficiente para saber onde não podemos voltar a errar. Ninguém pode dizer em novembro que vai ter uma equipa campeã. Vamos esperar pelo final da época.”

Sistema de jogo
“Os sistemas são infinitos. O jogo é feito de equilíbrios, para ser fortes temos de estar equilibrados defensivamente, para podermos marcar golos temos de ter presença na área. O sistema não radica na posição inicial do jogo, mas na mobilidade, na capacidade de ter competência em várias zonas do campo. Trabalhamos em 60 metros do campo, queremos essa visão. Todos gostavam que jogássemos com três avançados, mas temos de potenciar os jogadores que temos para adaptá-los à nossa ideia de jogo. Um sistema não é imposto aos jogadores, os jogadores é que fazem o sistema. A equipa técnica tem de ter conhecimento do plantel para adaptar a sua visão e modelo à equipa que tem. O sistema é infinito.”

Defesa como pilar
“O treinador estuda o rival e tenta saber o mais possível sobre ele. No momento, o nosso trabalho passa essencialmente por olharmos para nós e potenciarmos as ideias que temos. Os rivais têm uma grande preocupação de condicionar o nosso jogo e isso é bom, porque nos permite potenciar o nosso. A nossa capacidade deverá ser sempre a mesma, a resposta à proposta do rival para desbloquear os caminhos que nos permitam chegar ao golo. A nível da defesa estamos muito fortes, seguros, a equipa concede muito pouco aos adversários e isso permite-nos desde trás pensar o jogo para a frente. O jogo é feito de golos, marcar e não sofrer, e isso é que é equilíbrio.”

Juventude e experiência
“A nossa juventude é uma virtude. Temos de dar confiança e depois potenciar e desenvolver todo o talento e irreverência que têm. Mas não temos só juventude na equipa, temos muita experiência e veterania em postos importantes e esse equilíbrio torna a equipa sustentável e faz com que possa crescer. Não creio que a juventude seja um risco, confio totalmente nos jogadores que temos. A questão é interpretar e dar-lhes confiança, independentemente da idade que tenham. Sabemos que faz parte do crescimento ter a confiança da equipa e dos adeptos e isso é que os vai fazer ter muito sucesso.”

O convite do FC Porto e o início de época
“O telefone tocou, era o presidente e estava decidido. Depois do que vivi como jogador do FC Porto não tinha a mínima dúvida de que era onde queria estar. O que tentámos de início foi conhecer exaustivamente todos os jogadores que tínhamos sob contrato, para tomar decisões conscientes. O FC Porto tinha de jogar em agosto um play-off da Champions e fomos obrigados a construir o processo mais rapidamente porque a eliminatória era fundamental, em termos desportivos e económicos. Calhou-nos um rival muito difícil, que exigiu de nós um grande esforço, mas conseguimos superá-lo e a resposta foi boa.”

O fecho do mercado e a estabilização da equipa
“Quando o mercado fechou recomeçámos o que já tínhamos feito e temos hoje o plantel que queremos. Houve entradas de jogadores e a esses teve de ser dado conhecimento da ideia e processos de treino, eles tinham de ser cúmplices ou complementares dos colegas. Estou convicto de que a melhor versão do FC Porto ainda está por chegar. As entradas de jogadores no final de agosto fizeram com que repensássemos a nossa ideia. A partir desse momento considerámos que tínhamos de ter outra filosofia de jogo, hoje temos uma presença a nível ofensivo no meio-campo contrário bastante acentuada. Após o jogo com o Nacional o onze foi repetido mais vezes, mas nada garante que seja definitivo. Ter 100 por cento do plantel disponível dá muitas garantias de mudar um jogador e ter a mesma resposta.”

Espetáculo, mas com resultados
“Queremos que os nossos adeptos vejam um bom jogo, um bom espetáculo. Temos de lhes dar a alegria das vitórias mas também entusiamo e prazer do que é o futebol e o jogo. Queremos um FC Porto que jogue um futebol alegre e vistoso, mas é importante ter consciência de que o resultado tem de estar lá, vimos de um ciclo que é preciso quebrar. Não quero ser abusivo nem desrespeitar ninguém, mas jogar bem e perder não é de todo o que penso, porque nestes três anos anteriores isso aconteceu.”

Reforços em janeiro?
“Estamos a trabalhar internamente para isso. O fundamental é que todos os ajustes de plantel e entradas de jogadores tragam mais competitividade interna, mais qualidade. Caso contrário, estamos satisfeitos com o que temos.”

A arbitragem
“Devemos respeito aos árbitros, dar-lhes apoio para que façam o seu trabalho, mas também não podemos deixar passar em branco quando há questões evidentes que nos prejudicam e tiram pontos. Fazemos isso com a clareza e tranquilidade de dizer que confiamos nos árbitros e sabemos que vão para campo para fazer o melhor. Mas quando as coisas são tão evidentes magoam essencialmente o profissional que vê a injustiça de uma decisão tirar-lhe algo pelo qual lutou. O trabalho é difícil, mas esperamos que melhorem as suas atuações, tal como nós procuramos, e que não sejam intervenientes no resultado.”

Árbitros com medo de errar a favor do FC Porto?
Não levanto um clima de suspeição nesse sentido. O que peço, de forma humilde, é que sejam justos. Apitem o que veem, seja qual for equipa, consoante a sua consciência.”

Luta por todas as competições
“Sabemos que a qualquer momento podemos ter uma queda e temos de reagir rapidamente. Vimos de um empate no campeonato, agora temos de vencer na Taça de Portugal. Não renunciamos a nada, não faz sentido priorizar. Quando queremos construir uma equipa ganhadora e ambiciosa seria um contrassenso usar a palavra renunciar.”

O portismo
“Existe desde que me conheço, poucas pessoas sabem mas estive nos juniores do FC Porto, foi bastante cedo. A partir do momento em que qualquer indivíduo entra nesta casa é muito difícil não beber rapidamente o espírito que o Dragão tem e que faz de nós pessoas que defendem o FC Porto e gostam disso.”

O compromisso
“Não há risco, mas sim honra e responsabilidade de representar e ser treinador do FC Porto. Temos a responsabilidade de fazer do FC Porto de novo um clube campeão e vencedor e prometemos isso. Todos os que formam a equipa do FC Porto vão dar tudo para que assim seja. Isso é palavra de honra, há o compromisso para tentar isso.”

*in FCPorto

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