João Lopes Martins – o Dragão das Nove Vidas

joao_lopes_martins (3)

Aos domingos, no Campo da Constituição, João Lopes Martins chegava a almoçar só dois ovos estrelados. Szabo gostava de o ver com a bola nos pés, mas o treinador húngaro não lhe agradava muito e o futebol ainda menos. Este é o autorretrato do atleta mais ecléctico da história do FC Porto.

Lopes Martins nasceu em novembro de 1909, quando o clube ainda tinha morada no Campo da Rainha, mas seria já na Constituição que, aos 10 anos, o antigo atleta iniciaria carreira no FC Porto. Futebol, ténis, natação, atletismo, basquetebol, râguebi, andebol, voleibol e hóquei em campo são as nove modalidades da grande árvore desportiva de João Lopes Martins, que dizia ser um “topa a tudo” quando lhe pediam uma explicação para tanto ecletismo. Aliás, foi assim mesmo que respondeu, já em 1962, numa entrevista a O Porto, órgão oficial do clube, que o desafiou a partilhar memórias. “Entrava na Constituição ao alvorecer da manhã e o domingo seguia lá, ou noutros campos. Havia apenas mudança de guarda-roupa. E quantas vezes o menu do almoço se reduzia a dois ovos estrelados, que a esposa do Joaquim, saudoso guarda do Campo da Constituição, preparava e me servia para retemperar as forças…”, recordava-se bem.

“Siska felicitou-me”
À entrada da década de 1930, João Lopes Martins não tinha grande margem para descanso. Estava no auge da forma e do culto do ecletismo e, antes de se divorciar do futebol, era comum chegar ao fim de semana e ser solicitado para representar o clube de sol a sol, principalmente no Campo da Constituição.

O nosso imortal pinta-nos o quadro… “Lembro-me que, uma vez, de manhã, joguei basquetebol e andebol. Depois, à uma da tarde, joguei futebol, em Reservas, contra o Braga, mas só durante a primeira parte. Não joguei a segunda porque, para o desafio seguinte do dia, em categoria de Honra, faltava um elemento na equipa e alinhei eu por esse grupo. E foi de tal ordem a minha exibição que, no final, o Siska [guarda-redes] felicitou-me… Evitei que sofrêssemos dois golos em lances de baliza aberta”, brincou.

25 anos de basquetebol e um penta no andebol
A modalidade de eleição de João Lopes Martins terá sido o basquetebol. Dedicou a este jogo 25 anos de atividade – entre os primeiros tempos da secção, fundada em 1926, e o ano de 1951 –, como jogador e capitão de equipa, dirigente e treinador. Ao serviço de Portugal, foi chamado para os dois primeiros jogos de sempre da seleção nacional, frente à França, em 1931 e 1932. Em 1947/48 e 1949/50, o FC Porto sagrou-se campeão nacional da 2.ª Divisão de basquetebol.

No palmarés, estes são os dois primeiros títulos nacionais do clube na modalidade, conquistados com Lopes Martins a acumular funções de chefe de secção e orientador técnico. Quando passou a pasta a Fernando Pires [seccionista] e a Armelindo Bentes [treinador] em 1951, tinha já construído uma equipa que, em 1952 e 1953, venceria o Campeonato Nacional da 1.ª Divisão. Mas é no andebol de 11 que se descobre um dos maiores orgulhos de João Lopes Martins.

A modalidade chegou ao clube em 1930 e cativou muitos dos basquetebolistas do FC Porto, que se desdobravam entre estes dois jogos diferentes. Lopes Martins fez mesmo parte da primeira equipa de sempre do clube em andebol e, em 1962, destacava entre as memórias preferidas a conquista do primeiro campeonato nacional de andebol, em 1938/39. A esse título, acrescentou mais quatro consecutivos, sagrando-se pentacampeão em 1943.

Este é um extrato da rúbrica Os Imortais publicado na edição de dezembro da revista Dragões.

*in FCPorto

Comentários